Pandemia

Coronavírus: Grupo de cientistas vai traçar estratégias no Rio

Especialistas de várias instituições ajudarão o estado a planejar medidas contra a pandemia

No O Globo:

RIO – Como minimizar o impacto da pandemia do novo coronavírus nas 743 favelas do Rio? Qual a melhor estratégia para o atendimento em massa na rede pública de saúde? Esses e outros desafios vêm sendo avaliados por cientistas que foram convidados pelo governo do estado para formar um conselho de gestão da crise. Fazem parte do grupo especialistas da Fiocruz, UFRJ, Uerj, UniRio, Fundação Getúlio Vargas e PUC. O primeiro encontro aconteceu nesta segunda-feira, e hoje eles voltam a se reunir.

O convite partiu do secretário de Saúde, Edmar Santos, que se preocupa com o comportamento do novo coronavírus no Brasil, onde vários infectados morreram no mesmo dia em que foram hospitalizados.

Professor titular de epidemiologia da UFRJ, Roberto Medronho, um dos integrantes do conselho, ressaltou que a ideia de reunir especialistas é de extrema importância:

— A ciência é fundamental para que o estado adote medidas adequadas. O grupo reúne médicos, engenheiros, microbiologistas, biólogos, matemáticos e estatísticos. Juntos, vamos discutir as variáveis e sugerir ações — diz Medronho.

Ex-coordenador da área de recursos humanos da Organização Mundial de Saúde (OMS), de 2000 a 2012, o professor do Instituto de Medicina Social da Uerj Mario Roberto Dal Poz, de 69 anos, acredita que o papel dos especialistas será fundamental para dividir com o secretário de Saúde suas experiências.

— Pelo tamanho do problema, cada um pode dar a sua contribuição — afirmou Dal Pozo. — A ideia de ter integrantes de diversas áreas é uma estratégia para enfrentarmos esse desafio, levando em conta as características do nosso país. É o que chamamos: ‘pensar fora da caixinha’. Não temos a pretensão de dar grandes soluções, mas de ajudar o estado, a população, com o nosso conhecimento. Analisar os dados coletados pelas equipes da saúde do estado, refletir, discutir e dar opiniões. Temos que compartilhar ideias para minimizar o impacto dessa doença.

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Dal Pozo, a dois meses de completar 70 anos, vai participar das reuniões por videoconferência. Assim também ganhará tempo para conversar nos grupos aos quais participa de universidades de excelência, como as americanas Harvard e a Johns Hopkins. Outros colegas também participarão remotamente.

— A OMS já enfrentou vários desafios, como o Ebola (vírus que causou uma epidemia na África, em 2014), mas nada como a Covid-19, vírus totalmente novo, ainda sem cura e vacina. Cada um dos especialistas dessa comissão formada pelo estado tem seus grupos de discussão, relações internacionais. O compartilhamento de informação é crucial nesta hora. Reunidos com o estado, haverá mais rapidez na mobilização de recursos para atender à população.

Dal Pozo explica que o novo coronavírus surpreende os pesquisadores a toda hora:

— Por exemplo, no Brasil, já vimos que a faixa etária se difere da infectada em outros países. Temos pessoas mais jovens morrendo. A rapidez e a agressividade da doença também chama nossa atenção. Também preocupa muito de que forma o vírus vai atuar nas comunidades, com densidade demográfica grande, com casos de tuberculose, desnutrição. Ninguém tem essa experiência lá de fora — observou Dal Pozo, que, nos idos dos anos 1980, participou do 1º Plano Municipal de Atendimento Primário de Saúde na Zona Oeste do Rio.

O propósito do grupo de cientistas será dar rapidez às ações do estado, no campo das ideias, que vão desde o estudo dos pontos onde há focos da Covid-19 a sugestões para capacitação de técnicos no manuseio de aparelhos já existentes e que ainda estão por chegar. Como há pesquisas em andamento nas universidades, como o projeto de montagem de respiradores pela UFRJ, esse conhecimento precisa alcançar quem está na linha de frente: os profissionais de saúde que cuidam dos infectados.

O governador Wilson Witzel já apelidou o grupo de especialistas como “comissão de notáveis”. Segunde ele, a avaliação da comissão será fundamental para as decisões a serem tomadas pelo governo.

— Precisamos saber como é a movimentação do vírus no território e que grupo de profissionais está mais ou menos comprometido, onde temos o grande bolsão de pessoas que estão sendo curadas, por estarem protegidas porque já tiveram — disse Witzel, na coletiva de segunda-feira. — Nossas ações serão sempre respaldadas pela comunidade científica — ressaltou.

O governo do estado anunciou ainda que está coletando dados, com as informações de cada infectado para se descobrir, mais adiante, quem já está imunizado, passou pela quarentena e poderá circular sem riscos de contágio. Novos kits de testagem estão chegando para ajudar neste processo de checagem. Um aplicativo vem sendo desenvolvido para ser usado pela população, mas algumas informações, como a identidade das pessoas que contraíram o vírus, vão ser sigilosas e, portanto, não disponibilizadas.

A proposta é avaliar quem já está apto a sair do isolamento social. Por isso, os primeiros a passarem pela avaliação serão os profissionais de saúde.

O secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, que também é do meio acadêmico, recorreu à ciência estimulado pelas sugestões de vários profissionais da área com quem se reuniu para discutir o número de leitos nos hospitais. Segundo ele, há diferenças no comportamento do vírus no Brasil, um país tropical:

— Chama a nossa atenção a forma violenta como este vírus tem atacando por aqui. Há casos em que o paciente entra no hospital com falta de ar e, no dia seguinte, vem a óbito. Ele vai para o CTI, tem respirador, mas morre. Além disso, temos pessoas na faixa etária de 30 anos morrendo. Temos que discutir o que está ocorrendo — disse o secretário.

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